Uma voz aclamada desde a segunda guerra e que encanta a todos até hoje…

18 05 2008

Em algum lugar da França, uma multidão cercava dois ex-artistas de circo que se apresentavam em uma rua de Paris. A pequena criança apenas estava encarregada de recolher as esmolas oferecidas por esses curiosos que paravam para assistir as acrobacias de seu pai. Foi quando ele terminou e perguntaram pela menina tímida que o acompanhava. Sem saber o que fazer, ela resolveu cantar como sua mãe fazia quando ela era mais nova. Para surpresa de todos, uma linda voz se lançou de sua boca despertando a atenção de todos e encantando os ouvidos da platéia que testemunhava a descoberta de um novo fenômeno das ruas parisienses. Novos curiosos paravam para ver uma grande personalidade que ali se revelava. Todos que estavam presentes a aplaudiam.

- Bravo, bravo. Meus parabéns. – Gritavam.

Diante da triste história com sua mãe, que a neglicenciava, e da miséria que vivia com seu pai, um brilho de esperança surgiu em seus olhos ao ver uma luz no fim do túnel.

Os anos se passaram, e a mesma criança já mais velha, aparece correndo ladeira acima para cantar na esquina de uma rua e ganhar alguns trocados. Foi assim que ela conheceu seu primeiro empresário, Louis Leplée. A partir dessa fase de sua vida, ela era apresentada a um novo mundo. Aqui ela deixa as ruas e começa a cantar em uma casa de shows.

Com Leplée, ela estava para dar mais um passo importante em sua promissória carreira. É com ele, também, que ela começa a definir o seu nome artístico. Foi logo na primeira noite de seu show. No instante em que ela se preparava para cantar enquanto a cortina se abria, Leplée anunciava a nova atração da casa:

- É com orgulho que apresento Pardalzinho (Le Môme Piaf, em francês).

Então, ela surgia no palco para se entregar de corpo e alma diante da platéia que a aguardava para conhecer aquela voz forte e marcante que era capaz de tocar no coração de qualquer um.

Foi ali que Edith conheceu diversas personalidades do meio artístico. Leplée não só a introduziu profissionalmente em sua carreira de cantora como a apresentou a várias pessoas importantes que a ajudaram muito em seu sucesso posteriormente. Para ela, ele era mais do que seu empresário. Piaf o via como um segundo pai e em muitos momentos ela se referia a ele como “Papai Leplée”.

Não muito tempo adiante, um destino trágico foi dado ao seu empresário assassinado a tiros por um grupo de mafiosos. Ela sofreu muito com sua morte. Depois disso, Piaf ficou nas mão do maestro Raymond Asso já com o nome que lhe deu fama: Edith Piaf. É com ele, um maestro muito rigoroso, que ela se destaca dentro dos padrões musicais e desenvolve as expressões e gestos teatrais que ela passou a adotar em suas apresentações.

Sua vida, desde o início foi cercada de muito sofrimento. Assim como esses momentos, os de sua infância e o início de sua carreira em casas de show, em que tiveram algum drama marcado em sua vida, outros momentos também vieram acompanhados de tragédias. Além do problema com a mãe, da convivência com sua avó em um prostíbulo quando ela teve cegueira temporária, da miséria que viveu com seu pai e da morte de Leplée, ela enfrentou a perda de uma filha que teve em sua adolescência e, mais adiante, quando já era adulta, ela enfrentou a morte de seu grande amor, o pugilista Marcel Cerdan. Mais tarde, vem o problema com bebidas alccólicas e a deterioração de sua saúde que já era frágil. Internada por 2 anos com coma hepático, ela teve uma morte longa e sofrida.

Apesar dos sofrimentos, Piaf sempre conseguia dar a volta por cima. Assim como sua voz, ela era uma mulher firme e de forte personalidade. Teve uma vida curta, mas com muita experiência de luta e amor.

Ano passado, a biografia da cantora foi exibida no cinema. Bastante comentado e elogiado, o filme contou com uma excelente produção e um elenco de primeira. A atriz Marion Cotillard, que interpretou a cantora a partir da sua adolescência até a morte, ganhou o Oscar de melhor atriz. O prêmio foi muito mais do que merecido. Ela atuou tão bem que pareceu a própria Edith Piaf, as duas foram praticamente uma só.

Conseguindo arrancar muitos sentimentos e lágrimas, o longa metragem também merecia a premiação em muitas outras categorias, como de direção, arte, fotografia e, principalmente de melhor filme. A última cena, onde a cantora aparece em um show cantando com muito entusiasmo o que poderia ser um resumo de sua vida: “Non, Je Ne Regrette Rien”, era de sensibilizar qualquer um a ponto de todos se levantarem de suas cadeiras para bater palmas, um fato raríssimo em um cinema. Era na música que ela encontrava a felicidade e passava toda a sua emoção para quem a escutava. No filme, não poderia ser diferente, ela conseguiu fazer a mesma coisa. Há tempos, não se via nas telas algo desse calibre. Ali, o público se emociona, chora e pede reprise.


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